É possível que você tenha notado nos arredores de onde mora ou trabalha a presença espantosa de algum animal silvestre. Espantosa pela razão evidente de que aquilo é inesperado, não está de acordo com sua expectativa, não era para estar acontecendo. Um gambá na sua garagem e pronto, que susto! Para você e para o gambá! Não o maltrate, devolva-o à natureza. Mas e se forem dezenas de gambás? E se eles estão ali porque você não está ocupando o espaço?
Talvez você tenha recebido nos tempos recentes em suas redes sociais imagens de golfinhos nas águas de Veneza e da Sardenha, javalis nas ruas de Paris, civetes e macacos em grandes cidades da Índia, cervos próximos a Londres ou nas ruas de Nara, Japão, patos e gansos em Telaviv, leões da montanha em cidades do Colorado, lhamas, leopardos, emus, corujas-do-mato, lobos, cabras-monteses, às vezes em grupos de dezenas ou centenas em áreas urbanas, algo que simplesmente nos espanta, porque, de alguma forma, nos diz o bom senso, não era para estarem ali!
Esses vídeos agradáveis – engraçados, até! – chegaram a nossas redes sociais para exemplificar o efeito do confinamento humano durante a Covid-19 sobre o comportamento dos animais. Ou seja, veja como a natureza avança sobre o habitat urbano tão logo este ser racional se retrai, se refugia em seu amplo espaço do lar, mas limitado espaço da casa ou da residência!
Não sei quantos de nós, surpresos e bem-humorados com os vídeos, se indagavam silenciosamente: há algo mais que esse comportamento dos animais pode significar?
Sim, há, segundo um artigo do jornal El País. Dizem os biólogos consultados na matéria: esse é um comportamento de extremo risco para os animais. Esclarecem: quando o ser humano voltar à normalidade de suas vidas, reocupar as vias públicas de suas cidades e parar de alimentá-los, melhor seria que esses animais não tivessem se transformado tanto a ponto de não mais conseguirem sobreviver em seu habitat natural, as matas, os bosques, as florestas, onde devem todo dia prover sua sobrevivência, obtendo alimento e segurança por si próprios. Estes são os animais silvestres e a sua natural interação com os seres humanos, a flora e o ambiente físico.
Indo um pouco além no raciocínio, podemos ainda retrucar: mas quantas coisas nossa sociedade vem produzindo nos anos recentes que, aparentemente nos espantaram, nos surpreenderam e, ainda assim, nos reorganizamos, nos adaptamos e seguimos em frente? São inúmeras. E as chamamos de inovação tecnológica: algo inesperado que se insere no nosso ambiente, no nosso dia-a-dia, induz mudanças em nosso comportamento, numa palavra, transforma nosso mundo circundante. E, reagindo a isso nós, às vezes com alguma resistência, simplesmente reformulamos nosso comportamento e seguimos em frente. Este é o ser humano.
Os animais silvestres em breve retornarão a seus habitats e não mais serão alimentados pelos humanos ou competirão com estes e seus veículos nas vias públicas ou pelas sombras das árvores dos bem-cuidados jardins para procriação.
A boa notícia central desse episódio é que ‘os seres humanos, em toda a sua diversidade, voltarão à normalidade de suas vidas’. E nesse momento esperamos voltar melhores, pois – ainda que pelas piores razões – estivemos confinados e refletindo sobre a vida e nosso comportamento. E também porque a vida sofre transformações pelas tecnologias inovadoras que a própria humanidade se impõe. Será uma outra normalidade, será um novo campo de interação social, dizem alguns estudiosos. A normalidade da vida voltará, portanto. Cabe a nós, ativamente, influir nos novos moldes dessa normalidade.