A moda é uma expressão da liberdade individual se você a experimenta como a plenitude do seu estilo pessoal; entendido o estilo como algo que se constrói com uma boa dose de autoconfiança. Esse é um ensinamento que obtive ao ler, há cerca de dez anos, um livro de uma editorialista latino-americana de moda. Concluía seu livro dizendo “estilo surge quando você se ama o bastante para se vestir só para si, pois, no fim das contas, você é o único juiz que realmente tem autoridade”.
Na mesma época, num outro livro, de um jovem jornalista precocemente morto, li que nos primeiros dez anos do Século XXI, longe de ter havido uma tendência de moda hegemônica, que teria arrebatado a todos, ocorrera uma convivência de tendências. Várias tendências de estilo e produtos, que expressavam uma maior diversidade de gostos na sociedade, em que se tentou aproximar a chamada alta-costura e o consumo mais popular.
Há algum tempo chegam-nos notícias da ‘moda com propósito’, que seria uma atitude consciente dos estilistas e dos consumidores de fazerem da indústria e da cultura da moda uma atividade social mais sintonizada com os valores dos indivíduos. Ou, dizendo-se numa linguagem mais militante, tais valores seriam os de um mundo ambientalmente sustentável, de relações econômicas e sociais menos depredadoras e de maior justiça para com a dignidade das pessoas.
Os parágrafos acima expressam duas visões complementares da moda: uma forma de expressão da liberdade de cada pessoa em estar sintonizada com a sua própria identidade e autoconfiança e, a outra visão, uma forma de atividade social e econômica por meio da qual se procura atender aos valores do cliente, de preferência não se reduzindo ao mero consumismo, mas ancorada na exigência autoconsciente do consumidor em respeitar valores de dignidade social e de sustentabilidade ambiental.
Os criadores e gestores de moda estariam, então, neste exato momento se perguntando: como atenderei, com a sinalização de uma tendência, os gostos e valores daquela pessoa? Quais são os seus valores e os seus gostos? No outro polo, cada uma das pessoas, por sua vez, ao dirigir-se a sua arara, ao seu armário, ao seu guarda-roupa ou ao seu ‘closet’ e escolher a roupa que usará, estaria se perguntando: como expressarei minha personalidade e os meus sentimentos em relação ao mundo e às pessoas hoje?
Quando se trata da população com mais de sessenta anos, seguramente há um vazio enorme a ser preenchido. Somente muito recentemente essas pessoas passaram a receber atenção direcionada desse setor da economia. É impressionante que, ao menos com justificativa de criação de valor econômico, o mercado não tenha se dado conta das necessidades a satisfazer desse segmento. Durante muito tempo o mercado simplesmente ignorou essas pessoas. Consideremos que a cadeia produtiva da moda se mistura grandemente com a cadeia produtiva do vestuário. Portanto, são milhões e milhões de pessoas em todo o mundo que movimentam esse amplo mercado. É sua fonte de sustentação buscar atender às necessidades das pessoas. E mesmo assim a atenção com as mulheres e homens da terceira idade foi relegada.
Numa perspectiva, vestir-se é uma necessidade. Noutra perspectiva, complementar, fazê-lo com estilo próprio, orientando-se e posicionando-se em relação às tendências, é expressão da liberdade individual.
Voltando à editorialista mencionada há pouco: confie em si mesmo, dê sua mensagem ao mundo, construa e exerça seu estilo próprio. Ame-se. Você é única. Você é único. Como se expressará hoje?