Em inglês, ‘ageism’ expressa um comportamento discriminador em relação à idade das pessoas, em geral as mais idosas. Costuma ser acompanhado de termos pejorativos que nos remetem a visões irracionais e preconcebidas sobre indivíduos ou grupos, nos quais se percebem estereótipos relacionados a sua capacidade física e mental. Em português, preconceito por idade.
Diz-se que alguém está caduco! Talvez nem percebamos o quanto isso é preconceituoso. Limitamos assim a autonomia de alguém, pois ao dizê-lo sentencio aquela pessoa a ter perdido as qualificações para tratar do assunto que estou tratando. Ou seja, se é gagá, não trará contribuições relevantes ao tema; deve então ser mantido fora do debate sobre esse assunto. Estaremos inclusive autorizados a tomar decisões que afetam aquela pessoa sem consultá-la, pois, é óbvio, o que se disse é que ela está mentalmente incapaz!
Todos intuímos esse significado quando ouvimos algo assim ou agimos dessa maneira. Estaremos ouvindo ou determinando que alguém não conta!; alguém cujas opiniões apenas perturbam a racionalidade do meu pretenso raciocínio superior, ou da minha visão mais ampla.
Não nos parece que as pessoas devam ser proibidas de se expressar – seja como for que o façam – ou de preservarem concepções de vida que outros não aprovam. A melhor maneira de depurar conceitos inadequados é assegurar que se expressem publicamente, que as ideias sejam expostas ao público. A sociedade então decide quais abraçará. Certamente isso depende de uma sociedade suficientemente formada e informada e essa é uma miragem que ainda precisa ser buscada e alcançada. O caminho para essa sociedade não é uma trilha direta; é tortuosa e será traçada pelos próprios indivíduos. Mas todos os caminhos são assim numa sociedade livre: exigem tempo, dedicação, atenção, escolhas e responsabilização.
Todos os dias acontecem coisas que nos colocam diante de dilemas, que expõem concepções de vida, as quais aguardam ser depuradas.
A maneira como em alguns sistemas de saúde os idosos têm sido tratados nessa pandemia parece ser uma dessas situações. Não havendo suficiente quantidade de respiradores ou leitos de UTI, concordamos que haja um critério para se decidir a quem serão destinados. O critério ‘para os idosos, não!’ parece tão óbvio quanto é imperceptível o preconceito que ele traz.
Mas, de onde vem a convicção de que este deva ser o critério, perguntam dois geriatras italianos num recentíssimo artigo publicado no JAMDA (25 de março de 2020)? Situações-limite exigem decisões rápidas, afirmam; mas se indagam: por que a resposta que vem mais rápido deveria ser esta – ‘os idosos não’? Eles consideram que este protocolo médico está, tão somente, eivado de preconceitos contra os idosos e então se questionam sobre a possível responsabilidade da comunidade médica nisso.
A reflexão que fazem os leva a concluir que a decisão de usar um respirador, fundamentada na data de nascimento do paciente, pode revelar um risco de termos “perdido o significado e o valor da vida humana”.
Não se trata aqui de questionar cada decisão particular que foi tomada pelas equipes médicas ao redor do mundo. Os autores do artigo nos impelem a refletir sobre o quanto a data de nascimento, mais recente ou mais antiga, pode significar maior ou menor grau de humanidade de uma pessoa, bem como sobre o quão humanizadora uma decisão ancorada nesse preconceito é.
Os idosos são muito importantes para nossa sociedade, pelo que representam em termos de valores humanos, pela experiência e memórias que reuniram superando dificuldades e construindo a nossa realidade. São importantes pelo desafio que colocam a todas as pessoas de olharem para si mesmas e se sentirem impulsionadas a melhorar as coisas, quem sabe fazendo do respeito à autonomia uma cláusula pétrea da convivência em sociedade.