Voltemos uma vez mais ao relatório que uma equipe de análise social e econômica, ligada ao Google, fez sobre as mudanças perpetradas em nossas vidas pela Covid-19. Boa parte das pessoas, recolhidas em suas residências, vieram a substituir o costumeiro modo face-a-face, presencial, de relacionar-se por formas mediadas por tecnologias de comunicação e informação. Ou seja, passamos a consumir mais essas tecnologias. Chamamos a isso de virtualização das nossas relações.
Não nos esqueçamos: vulneráveis perante o vírus, nós nos recolhemos e aceleramos a virtualização de nossas relações. Virtualizadas as relações, nós nos vulnerabilizamos perante a inexistência de alternativa tecnológica disponível. A virtualização se impôs a nós. Ela não é meramente nosso feliz e saudado socorro, nosso abrigo que nos livra do mal. Entretanto, tornou-se uma realidade, a nossa atual realidade.
No mais explícito espírito empreendedor, sugeriam os analistas que nos concentrássemos na nova realidade virtualizada e aprofundássemos a mudança de comportamentos, produzindo novas e adaptadas soluções.
Se procurarmos no dicionário o termo disrupção encontraremos que se trata de uma ‘interrupção do curso normal de um processo’. Imagine uma pedra enorme caindo, inesperadamente, sobre um filete de água que forma um pequeno riacho. Passado o espargimento momentâneo inicial de matérias – água, terra, plantas, animais – para todos os lados, ela, a pedra, então se imporá na nova realidade e exigirá que a água se represe até o ponto em que consiga contorná-la ou encontre outra forma de fluir – como acontece desde que a Terra tem Gravidade – de terrenos mais elevados para menos. Nesse sentido a pandemia Covid-19 é vista como uma disrupção. E a virtualização de nossos comportamentos seria o novo fluir da vida.
Essas mudanças no ambiente, inclusive as de comportamento das pessoas, podem ser aproveitadas pelos diversos ramos da atividade privada, ou seja, pela economia. Veja-se, como exemplo, as atividades de turismo. Este segmento foi imediatamente afetado pela recomendação de confinamento proveniente da Organização Mundial de Saúde. As viagens aéreas foram imediatamente suspensas e vários países fecharam suas fronteiras para quaisquer tipos de entrada de pessoas.
Mas, lembremos também que perceber-se de uma situação como uma oportunidade exige visão e otimismo. Assim, sugerem os analistas do relatório, se a indústria do turismo, durante o confinamento, não pode oferecer a sua principal facilidade, qual seja, transportar pessoas economizando tempo e riscos em geral, certamente em muito ela contribuirá remoldando sua atividade, oferecendo-a com ainda mais eficaz redução de riscos, inclusive riscos de contágios de toda ordem. Isso está por ser feito e se constituirá num diferencial entre concorrentes. Outro aspecto importante dessa indústria é a de realizar sonhos e, nesse sentido, durante o confinamento a expectativa desses sonhos pode ser alimentada com imagens de beleza para o consumidor preso em casa.
Convencidos da importância de seu papel os empreendedores dessa área saberão compartilhar as belezas, cujo acesso normalmente oferecem a seus clientes, e que iluminam sua própria visão de mundo, nutrindo nos clientes esse sentimento; aguardando ambos o momento de o concretizarem: de um lado, propiciar esse acesso, de outro, usufruir desse sonho tão desejado.
Vejamos que um olhar assim adaptado, sem perder a essência da atividade, talvez seja possível para todas os empreendimentos privados. O consumidor talvez devesse render a devida atenção àqueles que, de fato, agregam valor a suas necessidades.
É provável um futuro próximo muito distinto do que já foi o mundo um dia; e que estará grandemente marcado por novas formas de sociabilidade, novas relações entre as pessoas. Uma sociabilidade profundamente intermediada pelas ferramentas virtuais! Exigirá muita inovação, novas formas de se relacionar que estão à espera de soluções. Estas podem ser construídas desde já. As tecnologias terão um papel muito importante. Ainda estamos procurando entender o que aconteceu e, certamente, ainda não sabemos o que será após. É um bom exercício tentar fazer as duas coisas: usar as ferramentas virtuais em casa para essas novas relações e investir-se na tarefa de fazer surgir a solução para um dos problemas atuais ou, simplesmente, de sugerir uma nova forma de atender às necessidades das pessoas, em realizar seus valores.